17 setembro 2012

Esconder desastres não é novidade? (Continuação I)

Em 20 de março de 2011, escrevi um post denominado "Esconder desastres não é novidade?", e neste post escrevi um parágrafo sobre o maior desastre em barragens que já ocorreu no mundo, a ruptura da Barragem do reservatório de Benqiao(板桥水库大坝), na China (em breve farei um relato mais detalhado do acidente, mostrando as reais razões do mesmo).

Devido a abertura do governo Chinês neste ano de intervalo é possível encontrar material em Chinês sobre este grande acidente, e lições valiosas foram tiradas e podem ser tiradas deste incidente. Porém se a China começa tirar seus segredos do passado, parece que no Brasil ainda continua a cultura de se culpar o tempo, ou mais recentemente o clima, como o vilão de tudo, e sobre acidentes do passado se mantém uma cortina negra como isto fosse vergonha. Excetuando Blogs locais como  O Blog de Barroquinha, Forquilha ontem hoje e sempre, Blog do Macario, Limoeiro do Norte e dezenas de outros, mais num lamento sertanejo, rememoraram os 50 anos do acidente no Açude de Orós no Ceará ocorrido em 1960. 

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Vista geral da Barragem Juscelino Kubistschek de Oliveira (Fonte DNOCS)

Foto aérea do Açude de Orós


Foto do açude rompido após um ou dois dias (não se tem maiores informações, nem o crédito das duas fotos)




Em comunicações técnicas este ocorrido é mostrado de forma superficial, como tivesse sido mais um rompimento de um açude qualquer, e nenhum estudo mostra a origem do acidente. Da mesma forma dos deslizamentos da Serra das Arraras, relatado em "Passado a crise volta-se ao bom senso." e outros, que causou vitimou em torno de 1700 pessoas, estes eventos em um passado não muito remoto (no caso da Serra das Arraras em 1967, o rompimento do Açude de Orós não fica tão longe assim.

Para darmos uma ideia do ocorrido, o número de atingidos por este rompimento em 1960, quando a população do Ceará era aproximadamente 3,3 milhões de pessoas (3 337 856), e para esta população o número de atingidos estimados na época foi de 170.000 pessoas. As estimativas do número de mortos no evento varia entre zero, estimativas oficiais, 50 ou 100 em publicações técnicas. Pelos números dá para se ver que estas estimativas, caracterizadas por números redondos (0, 50 ou 100) são meras especulações que contaram somente o número de afogados e não todas as pessoas que viviam em condições de extrema miséria e morreram tanto por afogamento como por fome e doenças geradas por veiculação hídrica.


Os relatos técnicos sobre o rompimento deste açude parece perdido na história, encontra-se alguns detalhes na web página do DNOCS dedicado a este açude. Para uma informação mais correta, vou simplesmente copiar aqui o que está escrito sobre o incidente.


"....Os técnicos do DNOCS elaboraram, então, dois anteprojetos para barragem em arco, com fundação sobre rocha: um em concreto gravidade e outro em maciço zoneado com argila, areia e enrocamento.

Motivos de ordem econômica e a disponibilidade de equipamento procedente da barragem de Araras, recém-concluída, induziram à elaboração da segunda alternativa de projeto, ou seja, a construção de uma barragem de terra zoneada.

Em outubro de 1958 foram escavadas as fundações, ficando prontas para receber o maciço previsto no projeto, tão logo cessassem as chuvas do ano seguinte.

O Engº José Cândido Castro Parente Pessoa, Diretor Geral do DNOCS à época, então determinava: "para realizar a construção do Orós em ritmo econômico, esta obra precisa ser levantada até a cota do coroamento (cota 209) entre junho de 1959 e março de 1960." E completava: "tão logo seja atingida a cota 185, todo o equipamento disponível para perfuração será localizado na área do vertedouro."

Em 1960, equipamentos de terraplenagem trabalhavam 24 horas por dia. As chuvas que chegaram bastante tardias e fracas no início desse ano, intensificaram-se em março de maneira violenta e passaram a comprometer o maciço em construção, pois o túnel, previsto para tomada d'água, não dava vazão suficiente àquela cheia excepcional.

A barragem ainda nem alcançava a cota 190 quando, com o recrudescimento das chuvas torrenciais, as águas começaram a lavar o maciço aos 17 minutos do dia 26 de março.

Diversas soluções foram intentadas durante a iminência do transbordamento. Com o início da extravasão das águas, julgou-se mais recomendável controlar o acidente. Para tanto, iniciou-se a abertura de uma vala no maciço, por onde a água passou a fluir em catarata, erodindo seu próprio vertedouro até a fundação da barragem e levando seu coroamento....."

Pode-se depreender que:

Primeiro: As soluções sugeridas pelos técnicos do DNOCS não foram as adotadas, partindo-se para uma terceira solução.

Segundo: Que o Diretor Geral do DNOCS tinha conhecimento que a obra deveria no mês de março de 1960 estar na cota 209m (cota de coroamento) e provavelmente por decisões políticas que retardaram as verbas (isto é uma hipótese) no mês previsto a barragem estava abaixo da cota 190, ou seja no mínimo 19 metros abaixo da cota de segurança.

Também se pode por outras fontes testemunhais ouvir uma história diferente, no Blog Ceará Fotos e História o relato já é outro, também vou coloca-lo como está escrito neste blog.

"Em 1960, com as obras ainda em andamento, a população ribeirinha viveu momentos dramáticos, quando em decorrência de uma grande cheia o Rio Jaguaribe transbordou e provocou o arrombamento parcial do Açude Orós, provocando uma enchente capaz de inundar o Médio e o Baixo Jaguaribe.

Logo a notícia logo se espalhou, e as cidades de Russas, Aracati, Itaiçaba, Jaguaribe, Limoeiro do Norte, Icó e o distrito de Alto Santo, de nome Castanhão,  foram evacuadas com o auxilio de tropas do exército.

Estima-se que cerca de dez mil pessoas, não tiveram tempo de fugir e ficaram  isoladas, e a sobrevivência passou a ser uma questão de sorte,  diante da aproximação rápida das águas enfurecidas do Rio Jaguaribe. Os moradores acuados se amontoavam nos lugares mais altos, como Poço Comprido, São João do Jaguaribe, Ilha Grande, Quixeré e Tabuleiro Alto, em Russas. Precisamente às 10 horas do dia 26 de março um terrível estrondo foi ouvido a grande distância, e as águas armazenadas no gigantesco açude ultrapassaram o nível da barragem e invadiram toda extensão do Vale do Jaguaribe.  A enxurrada  destruiu o que encontrava pela frente, levando de roldão povoações, cultivos, propriedades e criações deixando como rastro, a morte, a miséria e o desabrigo, que vitimaram mais de trezentas mil pessoas."

As histórias não são bem as mesmas, uma é de um arrombamento controlado que era previsto e não foi evitado por problemas não detalhado na história e outro de uma ruptura não controlada que lavou parte do planície de inundação levando propriedade e pessoas.

Após o grande acidente, com prejuízos incalculáveis a população o senhor presidente da República na época, o médico Juscelino Kubitschek de Oliveira, ordenou que o açude fosse reconstruído o mais rápido possível. Numa notícia de jornal da época (também não achei direito a fonte), nara-se um diálogo entre o presidente da República e o Diretor do DNOCS, que vemos a seguir:


Até que ponto esta notícia é verdadeira, não é possível se determinar, mas devido a isto o Açude de Orós foi rebatizado Barragem Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, e muitas fotos da sua visita são encontradas na rede, bem mais do que o acidente propriamente dito.


Um comentário:

  1. realmente muito interessante,parabens continue contando essas historias sobre obras grandes gosto muito,ja te incluir entre meus favoritos. eu queria que a Dilma tivese o pulso do JK para terminar a transposicao do Sao Francisco,entra em contato comigo Kaiserbruno71@gmail.com e pelo facebook

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